quarta-feira

- eu esperei que ele chegasse a casa para falar com ele, passei os dois dias antes com o telemóvel desligado, e nem me admirei por ele te ter ligado num desassossego profundo, a perguntar se me tinha acontecido alguma coisa, mas não conseguia atender-lhe o telemóvel, não era capaz. pensei várias vezes em mandar um mail, não é habitual, mas achei que se lhe escrevesse algo seria uma maneira mais fácil de levantar o peso, e eu tentei! escrevi mil vezes a mesma frase, mas o peso não se movia.
- mas sabias bem que quando ele chegasse terias de falar com ele, ou então sair de lá de casa sem deixar rasto o que seria basicamente impossível. um dia terias de enfrentá-lo.
- eu sei, mas decidi apenas esperar pelo seu regresso, até lá enfrasquei-me na mesa da sala com a garrafa de whisky que lhe tinha oferecido no natal, doía-me o corpo todo numa dormência estranha e sentia-me como que a desmaiar. e então a chave da porta rolou e abriu-se num rosto ao mesmo tempo preocupado e magoado. ainda consegui ouvi-lo murmurar "meu amor, que se passa?" antes de quebrar num riso choroso e embriagado. o meu cérebro parou quando ele entrou pela porta da sala. não conseguia formular uma frase ou sequer pensar com clareza. por isso limitei-me a levantar-me desajeitadamente e deixar o anel de noivado sobre a mesa. e na minha própria frieza, eu admito que o meu coração estalou ao ver o rosto de pânico dele perante o rodopiar do anel antes de repousar sobre a mesa. "podes explicar-me o que se está a passar?" perguntou-me ainda a custo. então eu própria desfiz-me em lágrimas que há muito tinham deixado de ser de crocodilo  e contei-lhe tudo num desassossego de coração, disse-lhe que ele tinha estado comigo na cama que também era dele, disse-lhe que lhe tinha emprestado roupa lavada e uma t-shirt para dormir. expliquei-lhe que lhe fiz o pequeno almoço de manhã e que falamos como se tudo fosse normal.
- tu és uma puta insensível!
- que querias que fizesse? eu não me arrepndi nem uma vez durante a noite, não pensei no anel que estava no meu dedo e nem o olhei uma vez que fosse como costumava fazê-lo. Carlos mandou a mesa de jantar contra a parede e explodiu palavras cada vez mais furiosas, eu nada fiz sem ser chorar no meu canto, bebada pelos meus sentimentos e emoções. e então ele respirou fundo e perguntou aquilo que eu nunca lhe contaria: "ele fez-te vir?" e os meus punhos cerraram perante aquela pergunta que eu só poderia responder com um silêncio afirmativo. e, cortando o mal pela raiz, peguei na minha mala de viagem e no meu casaco e sai de casa. não voltei a vê-lo desde então, não voltei a ver nenhum de nós desde então.

domingo

70% cacau

"e mesmo quando tudo aquilo em que acreditaste se torna mentira, se torna dor no peito que juraste não ter. tu continuas tu. a rapariga que detesta a sociedade mas que ama todos os seus defeitos. és aquela que quer uma cobra como animal de estimação. aquela que corta o cabelo na casa de banho. e sabes que mais? és horrível. a tua personalidade ou feitio (chama o que quiseres) é impossível de aguentar. mas, dentro dos possíveis, tu fizeste o que tinhas a fazer. e não foi suficiente, e sim, podias ter feito muito mais. eu conheço-te e tu podias ter feito tudo na perfeição. mas tu optaste por falhar, como ser humano, tu deste a ti própria o luxo de errar, errar como há muito não deixavas. e eu sei que se voltasses atrás farias tudo diferente, e serias perfeita aos olhos do mundo para teres aquilo que queres agora. mas sabes muito bem que, se realmente voltasses atrás, tu farias tudo igual (ou quase tudo) porque essa é quem tu és. e não és perfeita. és insuportável de ter. mas és quebravel e sempre o foste. e no fundo, tu sempre foste a que mais caranguejo é. tu és incrivelmente romântica, a tua essência é romântica, a tua essência é incapaz de trair aquilo que ama. mas tu falhaste. tu estás incluída nas pessoas que tatuaste no pulso. tu és quebravel. e tu erraste. tu gritaste e tu choraste. e agora Joana? se o mundo acabar amanha, se a efémera vida que levas acabar esta noite, é nessa melancolia que queres passar as ultimas horas?
agarra-a, engole a vida pela maneira como ela é falsa, pela maneira como ela é tão dolorosa. e ama os outros como nunca te deixaste fazer. ama porque amar faz parte. e depois morre por teres amado, morre porque não viste resposta a isso. mas morre a tentar. não morras de costas voltadas a tudo o que poderias ter tido. não desistas. nunca caias nessa cobardia cega. nunca olhes para trás. a vida é tão amarga como chocolate negro, lembraste da analogia? 70% de cacau? o mais saudável de todos."
- amar mata, sempre te disse.
- mas qual amar? confiar mata. confiar em ti matou-me. o amor a mim, há muito que não me diz nada.